Tuesday, February 2, 2010

João AZENHA Junior (Universidade de São Paulo, Brazil)

Do silêncio à eloquência: uma leitura da Poesia alemã traduzida no Brasil.



A antologia Poesia alemã traduzida no Brasil, organizada pelo poeta, escritor, jornalista e tradutor brasileiro Geir Campos (1924-1999) comemora seu cinqüentenário em 2010. Nas palavras de seu organizador, os objetivos principais da antologia são: (1) apresentar ao leitor brasileiro um panorama de poetas alemães traduzidos ao português – dos primeiros “autores desconhecidos” aos poetas da segunda metade do séc. XIX – e (2) “propiciar uma idéia da maneira e do critério dos tradutores brasileiros” (p. 19). Geir Campos, ele próprio tradutor e um dos pioneiros, no Brasil, a sistematizar em obras de caráter reflexivo sua experiência de traduzir, é muito discreto tanto na apresentação dos poetas, quanto em seus comentários sobre “a maneira e o critério” dos tradutores. Com efeito, suas observações restringem-se a uma brevíssima introdução, que ele – utilizando a nomenclatura das artes cênicas – chama de “prólogo” e intitula “Quase uma desculpa”. Contrariamente ao silêncio e à discrição de seu organizador, porém, a antologia, vista em retrospectiva, é uma síntese bastante eloqüente do legado de poetas alemães à literatura brasileira do início do séc. XX; um retrato das atividades profissionais de tradutores a cargo de editoras da época e um locus para o qual convergem esforços vindos de diferentes áreas do conhecimento. A antologia de poemas traduzidos permite identificar, ainda, que a noção de tradução de poesia subjacente à antologia está estruturada em torno da noção de fidelidade: “(...) a fidelidade no traduzir, em que se têm esmerado mais recentemente os profissionais e amadores do ofício, nem sempre foi a pedra de toque para as traduções mais antigas (...); aqui [nesta antologia] se hão de ler ‘traduções’ que antes valem como libérrimas adaptações ou interpretações, nas quais o estilo do tradutor encobre o do traduzido” (p. 20). Contudo, tal noção de fidelidade, a ser entendida como referente ao plano semântico e largamente empregada no Brasil cinqüenta anos atrás, encontra-se em descompasso com o trabalho de outros poetas-tradutores da época. Por exemplo, com o trabalho e o pensamento dos irmãos Haroldo e Augusto de Campos, ligados à Poesia Concreta, movimento literário surgido nos anos de 1950. Para ambos, a primazia ao traduzir deve ser dada à dimensão formal, plástica do poema e a tarefa dos tradutores, neste caso, consiste em “trans-criar” esse nível de significância na língua para a qual traduzem.Vista desta perspectiva, portanto, a antologia evidencia uma cisão, no Brasil daquela época, entre a prática editorial da tradução e o modo como poetas e eruditos brasileiros concebiam e praticavam a tradução.

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